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segunda-feira, 15 de abril de 2013

Por favor, deixa eu ser sua puta?


Já o conhecia de vista, trocava umas ideias e tal.  Ele era um sujeito descolado sabe: ouvia e tocava música boa, gostava de cinema, buscava sua independência. Nada de mais até então. Um dia ele me chamou para ir a um bar e conversamos por mais tempo. Ninguém desconfiaria, pela sua aparência, que havia algo mais interessante nessa história.
Em dado momento da conversa disse-lhe que eu já tinha sido uma puta. Ele mal esperou eu terminar, emendou sua fala na minha e me confessou – sem nenhum constrangimento: ‘’Sério? Minha mãe já foi uma puta’’.
Soltei uma gargalhada gostosa – sem nenhum constrangimento - não poderia perder a oportunidade, enchi minha boca e falei em voz alta: SEU FILHO DA PUTA!
Disse mais de uma vez: FILHO DA PUTA!  Imagina o prazer em minha boca ao pronunciar isso. Poxa, o cara era um legítimo filho da puta.
Espero que ele não tenha ficado decepcionado quando disse que eu nunca tinha sido uma puta – não como manda o figurino – no máximo um desejo sublimado. Eu e minhas brincadeiras.
Embora, quando eu era ainda uma adolescente um cara, que se dizia missionário, impôs sua mão na minha cabeça e orando a Deus por mim me revelou, com espanto, que eu tinha alguma coisa a ver com puta, que era para eu tomar cuidado. Ele não soube explicar. Nunca entendi direito, também nunca tomei cuidado, no entanto até agora jamais enxerguei algum ‘’q’’ de puta em mim, a não ser as roupas que visto e o batom encarnado. Frustrante! Será que minha mãe já foi uma puta?
Já esse cara foi gerado no ventre de uma, nunca esboçou nenhum espanto, ou tipo de preconceito sobre a particularidade de cada ser humano. Senti-me honrada por conhecer um verdadeiro filho da puta, que cai para nós, é bem mais interessante do que a vida de alguns santos.
Ainda espero conhecer a bendita entre as mulheres, a puta que o pariu. Mas donde me virá essa honra? Quem sabe mesmo, um anjo soprou no ouvido daquele profeta e eu ainda serei agraciada.
Em todo caso sugeri a esse meu novo brother que poderíamos produzir um filme e que seria um prazer seu eu pudesse conceber, ao menos num personagem, minha sonhada puta, nem que fosse num papel secundário, uma amiga da puta da sua mãe (com todo respeito, verdadeiramente).  Entre uma cerveja e outra:
'Por favor, deixa eu ser a puta?' Logo que disse isso meu coração estremeceu. Será esse o ‘’q’’ de puta que existe dentro de mim?


domingo, 3 de março de 2013

PARA REFLETIR Um brinde à melancolia, à rotina.


Às vezes correr da tristeza afugenta a felicidade. Saiba que a receita para tal é antiga, nossos avós já sabiam dela: basta respeitar a tempestade que o arco íris virá.


A sociedade moderna vive uma busca frenética para encontrar a felicidade, essa fórmula existe: ‘’Dez lições para ser feliz’’; ‘’Dez passos para alcançar a alegria’’; ‘’Dez segredos para o bem estar’’. São incontáveis os guias, de variados títulos; pílulas, de variadas cores, que no seu objetivo final tentam, de modo genérico, resultar na felicidade plena.

Vejo nisso, não a busca para essa auto-realização, mas a fuga incontrolável de vivenciar situações desconfortáveis. O ócio transforma-se em inimigo, pois nele a melancolia, a tristeza tornam-se mais latentes e, por sua vez, esses sentimentos soam como palavrões diante da ditadura do riso constante.

Quem não enxerga que rir continuamente é desesperador não pode compreender que o contentamento verdadeiro não está num happy hour, ou no efeito de uma bebida, para empurrar goela abaixo a dor, mas talvez esteja no gesto de até  mesmo beber, porém para dilatá-la e, olhando para dentro de si parar de achar que a grama do vizinho é sempre mais bonita. É necessário cuidar dos relevos da nossa grama. Quem omite os relevos da vida não terá estrutura para suportá-los, quando eles forem inevitáveis.

Há também nesse frenesi um descontentamento frente à rotina. Precisamos sempre de novidades, existem sempre pessoas mais interessantes, mais bonitas, quando estamos num relacionamento que de certa forma perdeu seu brilho. Trocamos de pessoas como quem troca um objeto. Depois de tudo isso o que restará é um grande sentimento de frustração: o novo vai se tornar velho e rotineiro novamente, quando não, serão relacionamentos frágeis. É como diz o ditado: ‘’Pedra que muito se muda não cria limo jamais’’!

Em vez disso, por que não concertar os objetos quebrados? Aceitar que não há felicidade plena e sim o equilíbrio de todas as energias que existem dentro da gente? Nossos avós fizeram assim, nossos pais fizeram assim, e deu certo, mas o tempo para eles não era um inimigo e sim sinônimo de sabedoria!

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

FIKADIKA-livro Filha Mãe Avó e Puta


Filha Mãe Avó e Puta - Gabriela Leite
Gênero: Biografia e Memórias
Ano: 2009

Eu tinha um cliente que chegava à zona sempre com uma bolsa a tiracolo. Ele entrava no quarto, abria a bolsa e tirava dela nada mais nada menos que uma camisola amarela. Ele a vestia e desfilava como uma ninfa [...] Ele então me perguntava docemente: “Você me acha linda?” Profissionalismo em primeiro lugar, eu respondia: “Linda! Lindíssima [...]”
Minhas maiores curiosidades que rondam o ofício da prostituição são os fetiches que os clientes buscam nessas profissionais. Nem todos os casais falam disso abertamente a seus parceiros. Existe um véu de moralismo, muitas vezes é herança da religião. Por isso esse universo se torna um mistério, do qual Gabriela Leite autobiógrafa em seu livro.
Como seu pai, que trabalhava em cassinos, ela aprendeu a amar a vida boêmia. Estudante do curso de Sociologia da USP, após o término das aulas encontrava-se com os amigos para beber e conversar. Debatiam de um tudo, mas a liberdade sexual era a pauta do momento. Ler também era sua paixão, então dividia os dois gostos: entre livros e cerveja fazia seu prazer de viver. Sua mãe Mathilde, enérgica, não gostava nada disso, mas Gabriela queria sua liberdade. Por ironia do destino, quando começou sua revolução sexual, a menina que queria ser livre acabou ficando grávida.
Não querendo anunciar a gravidez ao pai da criança, seguiu com a gravidez sozinha. Após ter a criança, sua mãe impõe regras que ela aceitou sem questionar, pois nesse momento encontrava-se frágil demais para se opor. Passado um tempo volta a trabalhar. O novo emprego faz com que ela revigore seu humor. Nas sextas-feiras, no fim do expediente, os convites para um happy hour são vários e tentadores, já havia um bom tempo que ela não saía. Um dia ela não resistiu e deu asas a sua liberdade, mas ao voltar para casa encontra sua mala feita, do lado de fora. Dona Mathilde não podia tolerar que sua filha e agora mãe, dividisse a maternidade com diversões.
Dormiu durante quatro noites nos bancos de uma estação. Não vendo outra solução, pede um adiantamento salarial e aluga um quarto. Pouco a pouco retoma sua vida. Volta para a graduação e, novamente todas as sextas-feiras volta para sua rotina preferida: a noite. Certa vez, no bar do Redondo, começou a observar o glamour das prostitutas do hotel Hilton. Foi atraída por esse glamour que Gabriela Leite se torna uma puta também. Ao que aparentemente denota ser uma aventura, sua decisão implicará em sérios questionamentos à sociedade.
Através de seu livro é que se conhece em detalhes como isso se sucedeu. Longe de ser uma leitura pacífica, de início percebemos que toda prostituta tem uma história no mínimo interessante e que se confunde com a nossa. Começar citando uma das fantasias de seus clientes é apenas uma faceta de sua história envolvente, que perpassa o seu ofício, pois ela, com força e coragem lutou pelo direito das prostitutas. Longe de servir a sociedade que quer transformar o mundo através de um jogo moralista do politicamente correto, Gabriela Leite é contra a qualquer palavra similar ao nome prostituta, pois é só garantindo os direitos delas e mudando o pensamento da sociedade que o nome puta pode não soar pejorativo.

Assista também De Frente com Gabi quatro blocos de entrevista com Gabriela Leite.














terça-feira, 3 de julho de 2012

FIKADIKA-livro Memórias de minhas putas tristes

                                            Um livro de Gabriel García Márquez
Gênero: Romance.
Ano: 2004

“No ano de meus noventa anos quis me dar de presente uma noite de amor louco com uma adolescente virgem”. É assim que dou início à resenha da a obra de Gabriel García Márquez e é também assim que o  autor inicia seu romance, Memórias de minhas putas tristes.
O redator do jornal El Diário de La Paz precisa escrever uma crônica. Há quarenta anos ele mantém a coluna que chega todos os domingos aos leitores que o acompanham tradicionalmente e o tema seria sobre como ele se sente na idade de um homem de quase um século. Seu editor está ansioso, pois a figura querida que se tornou para os leitores traria repercussão a seu jornal, afinal, não é todo dia que se completa noventa anos.
Mas ele não, os anos já haviam lhe mostrado o que realmente é essencial na vida e, como um sábio aprendeu que a ansiedade para o trabalho tinha a medida certa e os excessos nada mais lhe favoreceriam.
Apesar da idade lhe surgiu no coração desfrutar, na data do seu aniversário, do que ele mesmo adjetivaria de um amor louco. Uma menina, que embora dormisse em sua mocidade, torna-se seu delírio de ansiedade. Antes de dar início à leitura é necessário despir-se de certo pudor, como se tudo fosse possível, mas no fundo tudo o é, pois qualquer coisa que julguemos insano e alheio, torna-se aceito no universo literário.
A começar pelo seu desejo súbito. Naquele estágio de sua vida não poderia dar-se ao luxo de perder tempo sublimando seu desejo em fantasias, então resolve ligar para uma velha conhecida, a cafetina Rosa Cabarcas. Seu pedido parecia ousado de mais para ela, mas como se procura uma agulha no palheiro ela encontrou uma jovem com um pouco mais que uma década de vida: quatorze anos. 
As horas pareciam uma eternidade, para isso lhe valia ficar ansioso até chegar o horário combinado: dez horas da noite. Existiam dois motivos para não haver atraso, além de saber que seu tempo é valioso sua ninfeta precisa cuidar dos seus irmãos menores e uma mãe adoentada.
No primeiro dia, Rosa Cabarcas prepara uma mistura de plantas que tem por efeito acalmá-la. Ao entrar no quarto a vê já sem roupa e estirada na cama, dormindo num sono profundo, debaixo de uma luz que parecia conduzi-la a uma terra mágica. Ao ir ao banheiro encontra suas vestes dobradas cuidadosamente, denunciando sua pobreza. Tira também sua roupa e deita-se ao lado dela. Contempla a matiz de cores em cada parte do seu corpo moreno, deslizando suavemente os dedos em sua pele. Ela estremece. Sussurra em seu ouvido: A cama de Delgadina de anjos está rodeada. Vira de costas, ao que ele tenta envolvê-la junto a si. A dose de valeriana foi um sonífero à rotina extenuante da menina, pois seu anjo de candura não acordara.
O ancião nunca tivera tato com as mulheres, sempre pagou por elas. A diferença entre a menina e as outras é que pela primeira vez ele sente o amor despertar com ardor. Degaldina seria o nome pelo qual ele a chamaria sempre que a encontrasse e em seus sonhos.  O codinome é personagem de uma música que se encaixa na fantasia do principal personagem, que também não tem nome. Talvez para que o leitor identifique-se e veja que o insano não lhe é alheio, porque Delgadina pode ser a alegoria de um amor que não se concretizou.
Não posso cometer a gafe de não citar Cem anos de Solidão, obra que ganhou o Prêmio Nobel de Literatura, em 1982, cujo autor foi um dos precursores do Realismo Fantástico, corrente literária caracterizada por fundir a realidade ao mundo mágico, onde tudo é possível, em Memórias de minhas putas tristes não passa essa magia, quiçá a ideia de que para o amor não existe idade e para ele nunca é tarde de mais.
Ficadika

domingo, 24 de junho de 2012

FIKADIKA- Filme- O Palhaço


Para quem gosta de um filme brasileiríssimo e por isso original, uma boa pedida é o filme O Palhaço (2011), uma comédia dramática, dirigida por Selton Mello, que também vive Benjamim, um comediante que mostra o que há por detrás da maquiagem do palhaço, que não necessariamente é o riso constante. Frente à alegria que tentam trazer à sua platéia o cotidiano da trupe circense é uma realidade um pouco dura.
O Circo Esperança é a companhia que ele e seu pai Valdemar, interpretado por Paulo José, administram. Viajando pelo Brasil afora montam o circo em pequenas cidades do interior, o público se encanta com as apresentações, dispondo de poucas opções de lazer a presença do grupo se torna uma das atrações que mais causam entusiasmo aos moradores.
Como uma simbiose, os vilarejos parecem precisar da presença do circo tanto quanto o circo necessita deles para sobreviver, mas Benjamim é o único sentir-se deslocado, como o patinho feio, sente que não faz parte daquela família e precisa alçar voos que o leve de encontro a um espelho que reflita seu verdadeiro eu. Seu primeiro voo acaba esbarrando-se em uma hélice de efeito hipnótico, pois toda vez que vê um ventilador entra em transe, uma ação quase esquizofrênica que o transporta para longe dali e dos problemas financeiros da companhia.
Seu pai e também cúmplice, tentado tirá-lo dessa anemia de cores diz: “Cada um faz o que sabe: o gato bebe leite, o rato come queijo, e eu sou palhaço”. Mas Benjamim, já empalecido diante da contradição de viver para fazer os outros rirem, não estando feliz, tenta romper com o que mais teme: a sina.
Não há como não rir, não há como não se emocionar. As apresentações singelas da quase falida companhia seguem uma trama pitoresca e uma fotografia que enche os olhos com doçura e leveza, mas ao mesmo tempo o desenrolar do filme nos emite uma sensação de incapacidade, de não poder mudar uma situação e ter que chamá-la de sina.
Aos que ainda não assistiram FIKADIKA!

Dirigido por Selton Mello
Lançamento: 2011
Com: Paulo José, Tonico Pereira, Selton Mello
Gênero: Drama, Comédia.
Nacionalidade brasileira


quarta-feira, 6 de junho de 2012

PARA REFLETIR O Homem e o tempo



Sentado numa pedra um monge avistava do alto todo o vilarejo. O céu azul e brando, o vento quente davam a sensação de que seria mais um dia longo, mas ali não havia forma de marcar o tempo, o dia passava manso e sem pressa para o velho monge. Lá embaixo ele observava os passantes carregando as carroças cheias de fenos para levar aos animais. Mulheres e homens vendendo hortaliças, colhidas logo na primeira hora do dia. Não havia ambição para os homens do vilarejo, não havia desassossego paras as mulheres. Um dia, um homem cansado de sua vida corrida, decidiu que viajaria para o lugar mais calmo que lhe indicassem. Assim o fez.
Já no quarto de hotel, ainda na madrugada, fez uma rápida organização do que faria na manhã seguinte. Acordou cedo, disposto a conhecer os arredores do vilarejo, levou na bagagem seu celular, alguns documentos e tudo que fosse para as necessidades básicas. A rotina dos moradores lhe pareceu pouco interessante e previsível de mais. Começou a pensar um monte de coisas que faria naquele dia para que essa sensação mórbida não se impregnasse nele e reviu a organização que fizera na madrugada.
Sua peregrinação se resumia em observar como os habitantes levavam a vida, que cedo terminavam suas tarefas sem nada mais querer. Pensava: "não sabem usar a liberdade". Ele, no lugar deles, se dispusesse do tempo que tinham de sobra, faria muita coisa.
Depois de uma comida simples e saborosa sentiu curiosidade em saber o que havia naquela colina, era seu principal objetivo do dia. Perguntou ao senhor do restaurante o que seria necessário para subir sem maiores problemas. Leve o menos de bagagem possível, respondeu o senhor firmemente.
Não entendia o porquê sentia tanto peso na coluna, havia levado só uma bolsa. Tirou a água da bolsa e deixou-a ao lado de uma árvore, o que daria para avistar de longe. Sempre olhava para trás para ter nos olhos sua bolsa, mas em nada adiantou, suas costas continuava a doer.
Ao chegar ao cume da colina o velho monge estava lá, cumprimentou-o com um semblante sereno e iniciaram uma longa conversa. O homem, com a face grave, disse não entender o modo de viver daquele povo, religiosamente fazem todos os dias as mesmas coisas, com a liberdade de uma criança podem fazer qualquer coisa depois, pois sobram-lhes tempo, mas sem ambição, vivem a vida jogando conversa fora.
O que é o tempo para você? É uma forma de marcar o que é importante e realizá-la, disse o homem com um olhar inconformado.
O sábio respondeu. O tempo livre é a prioridade do homem e sua ambição é jogar conversa fora, nela está sua realização, sem mais pretensão. A pretensão do homem moderno é atender com urgência às coisas que eles criaram e, sem a inteligência de uma criança, usam sua liberdade tornando-se escravo delas. Correm o mais depressa possível e ganham tempo para depois perdê-lo fazendo mais coisas.  Quando enfim, cansam-se, resolvem subir a colina do verdadeiro objetivo, mas é impossível, olhando sempre para trás não conseguem deixar suas bagagens de preocupações, esquecem que são senhor das coisas, tendo-as com o que há de mais importante tem dificuldade em saber o que realmente é essencial.
O tempo se torna amigo do homem quando o homem não foge do tempo que tem, perdendo tempo com coisas, mas sim deixando o tempo passar sem coisa alguma para passar o tempo. O que realmente é importante? 
O homem respondeu num silêncio e profundo olhava para baixo, como se agora entendesse aquele povo e a si mesmo, pois avistava tudo de longe. Quando sentiu que havia que descer, notara que havia deixado o relógio na bagagem e não havia nenhuma outra forma de marcar o tempo a não ser a sua própria consciência. Naquele instante a coisa mais importante era que não havia coisa mais importante. Ele se dedicou ao tempo sem ver o tempo passar se impregnando daquela sensação de mansidão.

Leia também em SIMPLES - O prazer de concluir simples tarefas trás benefícios enormes.



SIMPLES O prazer de concluir simples tarefas trás benefícios enormes.




Sabe quando acordamos cheios de energia, certos de que realizaremos todas as tarefas pendentes e ainda sim vai sobrar tempo para se dedicar a leitura do livro? No fim do dia não conseguimos concluir nada, parece que o dia não rende. O que resta é um grande sentimento de culpa e vamos dormir com a conta no vermelho. Não deixe mais isso acontecer, o tempo é precioso.

 A vida moderna nos leva a um constante frenesi. Pudera, nunca se cobrou tanto de nós como hoje e antes nunca foi tão possível. A tecnologia extinguiu tarefas manuais permitindo otimizar nossas atividades. Então significa que temos mais tempo livre? Errado! Ganhamos mais tempo sim, porém para trabalhar ainda mais.
Tendo a internet como um aplicativo indispensável no mundo corporativo é possível levar tarefas para o lar. Mais fácil não é? Outro engano. Num ambiente confortável produzimos em maior quantidade, trabalhamos sem que sintamos o tempo passar, afinal estamos em casa. Quando o chefe liga no dia de folga, só pode ser porque não há outra pessoa gabaritada que possa nos substituir. De fato, a fim de diminuir custo as empresas contratam o menor número de funcionários e alguém precisa fazer o trabalho por dois. Sem se dar conta isso vira uma rotina e o pior, fazemos hora extra sem ganhar nada por isso.
O nosso relógio biológico não falha, acordamos religiosamente no horário de trabalhar, mas ao nos darmos conta que é nossa folga vem uma sensação prazerosa de poder dormir até mais tarde. Logo nossa mente é tomada por várias ideias, afinal, há um mundo de possibilidades: ler o livro que te aguarda na prateleira já algum tempo – é lógico que antes as gavetas precisam ser arrumadas. Visitar um velho amigo, que, aliás, já havia prometido a ele ao encontrá-lo na rua – mas só depois de checar a caixa de e-mails. Arriscar na cozinha a receita que copiou de uma amiga– mas com essa sujeira no fogão é quase impossível.
Nossas investidas acabam sempre sendo frustradas, mas é só surgir outra oportunidade que começamos planejar novamente: dessa vez nada nos impedirá – ledo engano. Fatidicamente nada sai como planejamos. A culpa vem quando pensamos na satisfação que teríamos se tivéssemos lido o livro.  Mas porque não conseguimos isso poxa?
Porque fazemos das nossas tarefas um evento.
Uma vez passei o dia todo organizando os arquivos do meu note book. Precisava dar uma fim naquela bagunça e uma solução para a lentidão do sistema, mas só depois cheguei à conclusão que deveria organizá-los sempre que fossem descarregados.  Gravar e organizar vários arquivos comprometeu todo meu dia e ainda me rendeu um mau humor danado por isso.
As tarefas devem ser simplificadas para não se tornarem um grande evento. Quanto mais procrastinamos, as tarefas aumentam e a disposição diminui. Quando finalmente decidimos executá-las, claro que demandarão muito mais tempo.
Se isso acontecer não se desespere, faça por etapa para o tempo não ser sacrificado apenas numa atividade. É importante estabelecer um tempo para realizar cada tarefa entre horas, dias e semanas. Mas não confie na sua memória, marque em pequenos lembretes todas as tarefas a serem realizadas, em lugar bem visível, começando do mais importante ao menos urgente. Assim você seleciona por caráter de urgência dividindo o tempo entre uma atividade e outra. Tendo a real consciência de todas as atividades poderá escolher qual fazer primeiro e qual, sendo menos urgente, poderá deixar para depois.
Quanto ao trabalho é preciso questionar o quanto ele é importante na sua vida e o quanto a empresa leva sua vida e bem estar em consideração. Emprego é algo que podemos escolher, entretanto o tempo não volta mais. Organizamos nosso tempo quando priorizamos o que é importante para nós, mas também perdemos muito tempo com coisas que não acrescentarão em nada. Fazer um bom exame de consciência, nos perguntando o que realmente é essencial, irá ajudar a melhor utilizar seu tempo livre. A disciplina é o caminho que nos levará ao prazer de concluir tarefas simples e planejar sonhos maiores, ao mesmo tempo ter o privilégio de adiar tarefas, sem culpa.

Leia também o texto em Para Refletir- O Homem e o tempo

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Por que desistimos de aprender algo que gostamos logo no primeiro passo?



Não desista de aprender algo que você sempre soube que ia te fazer mais feliz porque pensou que não leva jeito. É hora de saber que, embora demore, a recompensa virá.


Quem já não iniciou uma atividade porque ao se imaginar nela tinha certeza de que estava indo ao encontro de si mesmo, mas logo no primeiro dia pensou em desistir? Aprender sempre nos tira da posição de conforto, pois se trata do desconhecido, o que faz com que demandemos muito esforço para assimilar.
Na tentativa de decifrar o novo nos deparamos com nossas próprias limitações, isso é mais difícil de digerir do que lidar com o que é aparentemente estranho. A sensação de frustração geralmente faz com que voltemos para nossa zona de conforto, ou em outras palavras, nos faça desistir, mas antes disso precisamos nos dar ótimas desculpas, pois o sentimento de desistência pode ter consequências ainda piores. Nos convencemos de que não servimos para aquilo e procuramos nos conformar com atividades que tenham menos obstáculos e exijam menos de nós.
Um truque que uso para não acontecer isso é observar o processo de aprendizagem, de um modo bem simples. A princípio o cérebro enxerga o novo como um corpo estranho, então ele nega e rejeita esse corpo. Na realidade isso é um mecanismo de defesa, claro, nós estamos longe da zona de conforto, ou nossa área de segurança está sendo ameaçada, então o cérebro indica que precisamos sair dali, pois podemos sofrer alguma lesão.
Depois de certo tempo você entende que o novo, embora ainda te cause medo, não pode te causar um mal irreversível, decide-se por continuar enfrentando todas as sensações incômodas  advindas desse processo,  pois não deseja enfrentar um possível fracasso.
Essa foi a primeira fase que passei quando comecei a aprender a dançar. Quando fui a um bar me apaixonei pelo ritmo que todos estavam dançando, o zouk, minha atitude depois, foi logo procurar uma escola de dança. A única vaga que tinha era numa turma avançada, não pensei duas vezes, aceitei.
Nas primeiras aulas, preocupada somente com meus pés, não sabia o que fazer com o resto do meu corpo. Estava perdida e além do mais, sentia-me desconfortável ao lado de tantas pessoas que já sabiam dançar. Num segundo momento me senti um pouco mais segura, mas ao mesmo tempo recebia muitas informações que não pude assimilar imediatamente. Fiquei desesperada!
No terceiro estágio já conseguia arriscar uns passos mais difíceis, essa recompensa foi fundamental para que eu me esforçasse mais. Percebendo o quanto já tinha evoluído, tomei consciência de que podia ir além. Àquela altura já não havia mais possibilidades de abandonar a dança, pois resgatei a certeza de que estava indo ao meu próprio encontro.
Recebemos estímulos negativos e positivos, quando o nível de dificuldade está muito alto tendemos a nos desanimar, mas quando recebemos uma recompensa, nosso cérebro é motivado a querer mais a sensação desse prazer. Era isso que me levava a aprender mais rapidamente e estimulada, mas para isso é necessário paciência consigo mesmo. Não ajuda em nada cobranças excessivas, pois todo aprendizado leva um determinado tempo para ser assimilado integralmente.
Dar o primeiro passo nos impulsiona a dar o segundo e assim por diante. Quando conseguimos rodopiar, certos de que não esbarraremos em nossos medos, nos libertamos da condição de aceitar só as habilidades que dominamos e criamos coragem a nos lançar em outras atividades desafiadoras. 

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Quem fez História - MAZZAROPI- 100 ANOS de Saudades...


Se Mazzaropi estivesse vivo, hoje completaria 100 anos. Mazza vai, mas não completamente, deixa como legado 32 filmes, desses filmes, 25 foram produzidos pela sua companhia cinematográfica, Produções Amácio Mazzaropi (P.A.M – Filmes), fundada em 1958, quando já estava cansado de ser “artista dos outros”, como ele dizia.
Sua estréia no cinema foi no ano de 1952, ao aceitar a proposta do diretor Abílio Pereira de Almeida, que procurava um ator para ser estrela do seu longa, Sai da Frente (1952).
Foi um sucesso em bilheteria que motivou a produção de mais 2 filmes, Nadando em Dinheiro (1952) e Candinho (1953), e a verdade é  que o custo total nem alcançava o dobro do valor das outras produções da Companhia Cinematográfica Vera Cruz. Quando o opulento grupo da Vera Cruz percebeu que filmes para o público interno e com baixo custo de produção seria o caminho para garantir permanência no mercado, já era tarde, a obstinação em alcançar o público internacional exigia investimentos onerosos e a companhia já não havia mais como captar recursos, nem honrar seus credores. Em vista disso, em 1953, o Banco Estadual de São Paulo interrompe o financiamento e a Vera Cruz quebra.
Essa experiência serviu de exemplo para que Mazzaropi compreendesse que o caminho era agradar o público interno, pois lhe pareceu assombroso que, mesmo uma companhia, que dispunha de um capital considerável, chegou as últimas consequências. Não restou dúvidas, aproveitou seu sucesso e fama e foi além. Com uma carreira consolidada no teatro, rádio e televisão, já era conhecido em todo Brasil. Após encerrar sua carreira na Vera Cruz, trabalhou em mais três companhias de cinema, conciliando a carreira no rádio e teatro, até constituir capital suficiente para iniciar o que seria sua obstinação até o fim: o cinema nacional.
Os personagens de Mazzaropi eram quase sempre ingênuos, isso fazia supor que ele também o era, mas ao contrário deles, o astuto empreendedor e visionário sabia administrar seus negócios. Essa qualidade garantiu a PAM- Filmes uma permanência de vinte anos no mercado, sem nunca depender de qualquer financiamento do governo. Foi com o caipira que Mazzaropi permaneceu no cinema por tanto tempo, apesar da elite paulistana vociferar com críticas duras seus personagens, até porque, nesse gesto havia escondido um sentimento de inferioridade e mais do que isso, não aceitavam o estado de subdesenvolvimento do país, por isso tinha aversão aos filmes de Mazzaropi, que mostravam a realidade que eles tanto queriam negar, almejando a todo custo um cinema compatível ao europeu e americano, onde talvez pudessem sanar seu desejo de se parecerem com as nações que eles julgavam em tudo superior. Sua ambição foi a causa da derrocada da Companhia.
Contrariando aos críticos, Mazza consolidou o tipo caipira ao resgatar o personagem Jeca das obras de Monteiro Lobato. Paulo Emílio Salles Gomes estava certo ao afirmar que Mazza atinge o fundo arcaico de cada um de nós e mostrou o caminho para descobrir o que está escancarado, que o caipira é sinônimo de brasilidade e que no fundo há um Jeca em cada um de nós brasileiros. .
Sua obra é a memória do artista, cineasta e empresário, que deve ser preservada para servir de referência. Seus filmes ficam, mas fica também uma saudade.


O compositor Elpídio Santos era seu preferido e compunha músicas especialmente para seus filmes. Essa é a sua canção preferida, do clássico Casinha pequenina (1963). Também é minha canção predileta.


domingo, 1 de janeiro de 2012

TEXTO DE ABERTURA Existir

SIMPLES



A condição de ser um simples mortal é torturante para a humanidade, para ser menos penosa criamos significados simbólicos para a vida. Queremos ser reconhecidos por nossos feitos na nossa breve passagem à Terra, foi assim com nossos ancestrais, as pinturas rupestres são suas marcas no tempo, que perduram até hoje.
Essa busca incessante, de um sentido à nossa existência, é acompanhada por um vazio aflitivo, ele é a mola que nos impulsiona a projetar sonhos cada vez mais criativos e, quem sabe, sanar esse buraco em nosso peito. Isso é o que nos difere dos animais, a consciência de nós mesmos. Nascer, multiplicar e morrer é pouco para nossa espécie.
Antes de nós e depois dos nossos ancestrais, o filósofo Jean Paul Sartre pensava sobre essa condição torturante, para ele, existir precede a essência, o que significa que nossa identidade não nasce formada, ela se molda a sociedade que nos cerca. Portanto, ter um pensamento condicionado sobre quem somos pode ser perigoso.
As religiões cumprem também o papel de dar sentido a vida: na fé cristã a evolução só é atingida após a morte; no espiritismo ela é alcançada degrau por degrau, pois há a crença de que, através da reencarnação, passaremos por várias vidas até nos tornarmos seres evoluídos. Além disso, se fizermos tudo como indica os dogmas de cada fé, teremos compensações também no plano terrestre. 
Embora a sociedade moderna tente dar sentido a vida com as novas tecnologias, a arte ainda é considerada por muitos uma condutora para transcendência da alma, ou ainda, uma forma de recriar a vida, no inconstante descontentamento. Muita das pinturas de Vincent Van Gogh expressavam seus sentimentos, um alívio da sua mente inquieta. 
A sequência de quadros, intitulada Os Girassóis? Foi uma das últimas obras do pintor antes de decidir morrer, no auge da doença que lhe perturbara tanto a mente, a ponto de cortar a própria orelha. O significado das obras, numa visão superficial, ilustram apenas flores amarelas, para Van Gogh, talvez uma forma de recriar a própria loucura e a cada flor uma catarse.
Decidir sobre a vida, nem sempre é tarefa simples, assim como a Van Gogh, flores amarelas não são apenas flores amarelas. É com esse pensamento que quero introduzir meu blog, de que, embora o sentimento de existir tenha significados diferentes para cada um, nos encontraremos nessas linhas com várias histórias em comum. 
Não existe risco na escolha da morte, há a certeza de que nada mais queremos fazer, mas se você acredita que a vida pode ser ressignificada, apesar da finitude, e, assim como eu escolheu arriscar a viver, desejo partilhar as sutilezas da existência, não deixando de homenagear o artista que tanto nos homenageou em vida, deixando suas pinturas como marcas eternas, assim deixo um poema meu, que não tem a intenção de atravessar o tempo, mas de viver brevemente, enquanto durar o sentimento que subsiste nessa leitura.

Uma flor para Vincent


Traga-me os Girassóis
As Noites Estreladas não são como outrora
Os corvos atrapalham- me o sono
O campo de trigo é uma imagem branda
Lá é onde eu quero estar para sempre
Vejo Obá sentindo dor
E dou a ela uma oferenda
Talvez ela anuncia minha hora
Estou cansado de sublimação
Já achei todas as respostas
Nessa vida não cabe mais porquês
Agora estou livre
No meu Jardim Florido