Já o conhecia de vista, trocava umas ideias e
tal. Ele era um sujeito descolado sabe:
ouvia e tocava música boa, gostava de cinema, buscava sua independência. Nada
de mais até então. Um dia ele me chamou para ir a um bar e conversamos por mais
tempo. Ninguém desconfiaria, pela sua aparência, que havia algo mais interessante
nessa história.
Em dado momento da conversa disse-lhe
que eu já tinha sido uma puta. Ele mal esperou eu terminar, emendou sua fala na
minha e me confessou – sem nenhum constrangimento: ‘’Sério? Minha mãe já foi
uma puta’’.
Soltei uma gargalhada gostosa –
sem nenhum constrangimento - não poderia perder a oportunidade, enchi minha boca
e falei em voz alta: SEU FILHO DA PUTA!
Disse mais de uma vez: FILHO DA
PUTA! Imagina o prazer em minha boca ao pronunciar
isso. Poxa, o cara era um legítimo filho da puta.
Espero que ele não tenha ficado decepcionado
quando disse que eu nunca tinha sido uma puta – não como manda o figurino – no
máximo um desejo sublimado. Eu e minhas brincadeiras.
Embora, quando eu era ainda uma
adolescente um cara, que se dizia missionário, impôs sua mão na minha cabeça e
orando a Deus por mim me revelou, com espanto, que eu tinha alguma coisa a ver com
puta, que era para eu tomar cuidado. Ele não soube explicar. Nunca entendi
direito, também nunca tomei cuidado, no entanto até agora jamais enxerguei algum ‘’q’’ de puta em mim, a não ser as roupas que visto e o batom encarnado. Frustrante!
Será que minha mãe já foi uma puta?
Já esse cara foi gerado no ventre
de uma, nunca esboçou nenhum espanto, ou tipo de preconceito sobre a
particularidade de cada ser humano. Senti-me honrada por conhecer um verdadeiro
filho da puta, que cai para nós, é bem mais interessante do que a vida de
alguns santos.
Ainda espero conhecer a bendita
entre as mulheres, a puta que o pariu. Mas donde me virá essa honra? Quem sabe mesmo,
um anjo soprou no ouvido daquele profeta e eu ainda serei agraciada.
Em todo caso sugeri a esse meu novo
brother que poderíamos produzir um filme e que seria um prazer seu eu pudesse conceber,
ao menos num personagem, minha sonhada puta, nem que fosse num papel
secundário, uma amiga da puta da sua mãe (com todo respeito, verdadeiramente). Entre uma cerveja e outra:
'Por favor, deixa eu ser a puta?' Logo que
disse isso meu coração estremeceu. Será esse o ‘’q’’ de puta que existe dentro
de mim?
