Filha
Mãe Avó e Puta - Gabriela Leite
Gênero: Biografia e Memórias
Ano: 2009
Gênero: Biografia e Memórias
Ano: 2009
“Eu
tinha um cliente que chegava à zona sempre com uma bolsa a tiracolo. Ele
entrava no quarto, abria a bolsa e tirava dela nada mais nada menos que uma
camisola amarela. Ele a vestia e desfilava como uma ninfa [...] Ele então me
perguntava docemente: “Você me acha linda?” Profissionalismo em primeiro lugar,
eu respondia: “Linda! Lindíssima [...]”
Minhas
maiores curiosidades que rondam o ofício da prostituição são os fetiches que
os clientes buscam nessas profissionais. Nem todos os casais falam disso
abertamente a seus parceiros. Existe um véu de moralismo, muitas vezes é
herança da religião. Por isso esse universo se torna um mistério, do qual
Gabriela Leite autobiógrafa em seu livro.
Como
seu pai, que trabalhava em cassinos, ela aprendeu a amar a vida boêmia.
Estudante do curso de Sociologia da USP, após o término das aulas encontrava-se com os amigos para beber e conversar. Debatiam de um tudo, mas a liberdade
sexual era a pauta do momento. Ler também era sua paixão, então dividia os dois
gostos: entre livros e cerveja fazia seu prazer de viver. Sua mãe Mathilde,
enérgica, não gostava nada disso, mas Gabriela queria sua liberdade. Por ironia do destino, quando começou sua revolução sexual,
a menina que queria ser livre acabou ficando grávida.
Não
querendo anunciar a gravidez ao pai da criança, seguiu com a gravidez sozinha.
Após ter a criança, sua mãe impõe regras que ela aceitou sem questionar, pois
nesse momento encontrava-se frágil demais para se opor. Passado um tempo volta a
trabalhar. O novo emprego faz com que ela revigore seu humor. Nas sextas-feiras,
no fim do expediente, os convites para um happy hour são vários e tentadores, já havia um
bom tempo que ela não saía. Um dia ela não resistiu e deu asas a sua liberdade,
mas ao voltar para casa encontra sua mala feita, do lado de fora. Dona Mathilde não podia tolerar que sua filha e agora mãe, dividisse a maternidade com diversões.
Dormiu
durante quatro noites nos bancos de uma estação. Não vendo outra solução, pede
um adiantamento salarial e aluga um quarto. Pouco a pouco retoma sua vida.
Volta para a graduação e, novamente todas as sextas-feiras volta para sua rotina preferida: a noite. Certa vez, no bar do Redondo, começou a observar o glamour das prostitutas
do hotel Hilton. Foi atraída por esse glamour que Gabriela Leite se torna uma puta também. Ao
que aparentemente denota ser uma aventura, sua decisão implicará em sérios
questionamentos à sociedade.
Através
de seu livro é que se conhece em detalhes como isso se sucedeu. Longe de ser
uma leitura pacífica, de início percebemos que toda prostituta tem uma história no mínimo interessante e que se confunde com a nossa. Começar citando uma das fantasias de seus
clientes é apenas uma faceta de sua história envolvente, que perpassa o seu
ofício, pois ela, com força e coragem lutou pelo direito das prostitutas. Longe
de servir a sociedade que quer transformar o mundo através de um jogo moralista
do politicamente correto, Gabriela Leite é contra a qualquer palavra similar ao
nome prostituta, pois é só garantindo os direitos delas e mudando o pensamento da
sociedade que o nome puta pode não soar pejorativo.
Assista também De Frente com Gabi quatro blocos de entrevista com Gabriela Leite.
