A condição
de ser um simples mortal é torturante para a humanidade, para ser menos penosa criamos
significados simbólicos para a vida. Queremos ser reconhecidos por nossos
feitos na nossa breve passagem à Terra, foi assim com nossos ancestrais, as pinturas rupestres são
suas marcas no tempo, que perduram até hoje.
Essa
busca incessante, de um sentido à nossa existência, é acompanhada por um vazio
aflitivo, ele é a mola que nos impulsiona a projetar sonhos cada vez mais
criativos e, quem sabe, sanar esse buraco em nosso peito. Isso é o que nos
difere dos animais, a consciência de nós mesmos. Nascer, multiplicar e morrer é pouco para nossa espécie.
Antes de
nós e depois dos nossos ancestrais, o filósofo Jean Paul Sartre pensava sobre
essa condição torturante, para ele, existir precede a essência, o que significa
que nossa identidade não nasce formada, ela se molda a sociedade que nos cerca. Portanto, ter um pensamento condicionado sobre quem somos pode ser perigoso.
As
religiões cumprem também o papel de dar sentido a vida: na fé
cristã a evolução só é atingida após a morte; no espiritismo ela é
alcançada degrau por degrau, pois há a crença de que, através da
reencarnação, passaremos por várias vidas até nos tornarmos seres evoluídos. Além disso, se fizermos tudo como indica os dogmas de cada fé, teremos
compensações também no plano terrestre.
Embora a sociedade moderna tente dar sentido a vida com as novas tecnologias, a arte ainda é considerada por muitos uma condutora para transcendência da alma, ou ainda, uma forma de recriar a vida, no
inconstante descontentamento. Muita das pinturas de Vincent Van Gogh expressavam seus sentimentos, um alívio da sua mente inquieta.
A sequência de quadros,
intitulada Os Girassóis? Foi uma das últimas obras do pintor
antes de decidir morrer, no auge da doença que lhe perturbara tanto a mente, a
ponto de cortar a própria orelha. O significado das obras, numa visão superficial, ilustram apenas flores amarelas, para
Van Gogh, talvez uma forma de recriar a própria loucura e a cada flor uma
catarse.
Decidir sobre a vida, nem sempre é tarefa simples, assim como a Van Gogh, flores amarelas não são apenas flores amarelas. É com esse pensamento que quero introduzir meu blog, de que, embora o sentimento de existir tenha significados diferentes para cada um, nos encontraremos nessas linhas com várias histórias em comum.
Não existe risco na escolha da morte, há a certeza de que nada mais queremos fazer, mas se você acredita que a vida pode ser ressignificada, apesar da finitude, e, assim como eu escolheu arriscar a viver, desejo partilhar as sutilezas da existência, não deixando de homenagear o artista que tanto nos homenageou em vida, deixando suas pinturas como marcas eternas, assim deixo um poema meu, que não tem a intenção de atravessar o tempo, mas de viver brevemente, enquanto durar o sentimento que subsiste nessa leitura.
Traga-me os Girassóis
Uma flor para Vincent
Traga-me os Girassóis
As Noites Estreladas não são como outrora
Os corvos atrapalham- me o sono
O campo de trigo é uma imagem branda
Lá é onde eu quero estar para sempre
Vejo Obá sentindo dor
E dou a ela uma oferenda
Talvez ela anuncia minha hora
Estou cansado de sublimação
Já achei todas as respostas
Nessa vida não cabe mais porquês
Agora estou livre
No meu Jardim Florido
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