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terça-feira, 3 de julho de 2012

FIKADIKA-livro Memórias de minhas putas tristes

                                            Um livro de Gabriel García Márquez
Gênero: Romance.
Ano: 2004

“No ano de meus noventa anos quis me dar de presente uma noite de amor louco com uma adolescente virgem”. É assim que dou início à resenha da a obra de Gabriel García Márquez e é também assim que o  autor inicia seu romance, Memórias de minhas putas tristes.
O redator do jornal El Diário de La Paz precisa escrever uma crônica. Há quarenta anos ele mantém a coluna que chega todos os domingos aos leitores que o acompanham tradicionalmente e o tema seria sobre como ele se sente na idade de um homem de quase um século. Seu editor está ansioso, pois a figura querida que se tornou para os leitores traria repercussão a seu jornal, afinal, não é todo dia que se completa noventa anos.
Mas ele não, os anos já haviam lhe mostrado o que realmente é essencial na vida e, como um sábio aprendeu que a ansiedade para o trabalho tinha a medida certa e os excessos nada mais lhe favoreceriam.
Apesar da idade lhe surgiu no coração desfrutar, na data do seu aniversário, do que ele mesmo adjetivaria de um amor louco. Uma menina, que embora dormisse em sua mocidade, torna-se seu delírio de ansiedade. Antes de dar início à leitura é necessário despir-se de certo pudor, como se tudo fosse possível, mas no fundo tudo o é, pois qualquer coisa que julguemos insano e alheio, torna-se aceito no universo literário.
A começar pelo seu desejo súbito. Naquele estágio de sua vida não poderia dar-se ao luxo de perder tempo sublimando seu desejo em fantasias, então resolve ligar para uma velha conhecida, a cafetina Rosa Cabarcas. Seu pedido parecia ousado de mais para ela, mas como se procura uma agulha no palheiro ela encontrou uma jovem com um pouco mais que uma década de vida: quatorze anos. 
As horas pareciam uma eternidade, para isso lhe valia ficar ansioso até chegar o horário combinado: dez horas da noite. Existiam dois motivos para não haver atraso, além de saber que seu tempo é valioso sua ninfeta precisa cuidar dos seus irmãos menores e uma mãe adoentada.
No primeiro dia, Rosa Cabarcas prepara uma mistura de plantas que tem por efeito acalmá-la. Ao entrar no quarto a vê já sem roupa e estirada na cama, dormindo num sono profundo, debaixo de uma luz que parecia conduzi-la a uma terra mágica. Ao ir ao banheiro encontra suas vestes dobradas cuidadosamente, denunciando sua pobreza. Tira também sua roupa e deita-se ao lado dela. Contempla a matiz de cores em cada parte do seu corpo moreno, deslizando suavemente os dedos em sua pele. Ela estremece. Sussurra em seu ouvido: A cama de Delgadina de anjos está rodeada. Vira de costas, ao que ele tenta envolvê-la junto a si. A dose de valeriana foi um sonífero à rotina extenuante da menina, pois seu anjo de candura não acordara.
O ancião nunca tivera tato com as mulheres, sempre pagou por elas. A diferença entre a menina e as outras é que pela primeira vez ele sente o amor despertar com ardor. Degaldina seria o nome pelo qual ele a chamaria sempre que a encontrasse e em seus sonhos.  O codinome é personagem de uma música que se encaixa na fantasia do principal personagem, que também não tem nome. Talvez para que o leitor identifique-se e veja que o insano não lhe é alheio, porque Delgadina pode ser a alegoria de um amor que não se concretizou.
Não posso cometer a gafe de não citar Cem anos de Solidão, obra que ganhou o Prêmio Nobel de Literatura, em 1982, cujo autor foi um dos precursores do Realismo Fantástico, corrente literária caracterizada por fundir a realidade ao mundo mágico, onde tudo é possível, em Memórias de minhas putas tristes não passa essa magia, quiçá a ideia de que para o amor não existe idade e para ele nunca é tarde de mais.
Ficadika

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