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quarta-feira, 6 de junho de 2012

PARA REFLETIR O Homem e o tempo



Sentado numa pedra um monge avistava do alto todo o vilarejo. O céu azul e brando, o vento quente davam a sensação de que seria mais um dia longo, mas ali não havia forma de marcar o tempo, o dia passava manso e sem pressa para o velho monge. Lá embaixo ele observava os passantes carregando as carroças cheias de fenos para levar aos animais. Mulheres e homens vendendo hortaliças, colhidas logo na primeira hora do dia. Não havia ambição para os homens do vilarejo, não havia desassossego paras as mulheres. Um dia, um homem cansado de sua vida corrida, decidiu que viajaria para o lugar mais calmo que lhe indicassem. Assim o fez.
Já no quarto de hotel, ainda na madrugada, fez uma rápida organização do que faria na manhã seguinte. Acordou cedo, disposto a conhecer os arredores do vilarejo, levou na bagagem seu celular, alguns documentos e tudo que fosse para as necessidades básicas. A rotina dos moradores lhe pareceu pouco interessante e previsível de mais. Começou a pensar um monte de coisas que faria naquele dia para que essa sensação mórbida não se impregnasse nele e reviu a organização que fizera na madrugada.
Sua peregrinação se resumia em observar como os habitantes levavam a vida, que cedo terminavam suas tarefas sem nada mais querer. Pensava: "não sabem usar a liberdade". Ele, no lugar deles, se dispusesse do tempo que tinham de sobra, faria muita coisa.
Depois de uma comida simples e saborosa sentiu curiosidade em saber o que havia naquela colina, era seu principal objetivo do dia. Perguntou ao senhor do restaurante o que seria necessário para subir sem maiores problemas. Leve o menos de bagagem possível, respondeu o senhor firmemente.
Não entendia o porquê sentia tanto peso na coluna, havia levado só uma bolsa. Tirou a água da bolsa e deixou-a ao lado de uma árvore, o que daria para avistar de longe. Sempre olhava para trás para ter nos olhos sua bolsa, mas em nada adiantou, suas costas continuava a doer.
Ao chegar ao cume da colina o velho monge estava lá, cumprimentou-o com um semblante sereno e iniciaram uma longa conversa. O homem, com a face grave, disse não entender o modo de viver daquele povo, religiosamente fazem todos os dias as mesmas coisas, com a liberdade de uma criança podem fazer qualquer coisa depois, pois sobram-lhes tempo, mas sem ambição, vivem a vida jogando conversa fora.
O que é o tempo para você? É uma forma de marcar o que é importante e realizá-la, disse o homem com um olhar inconformado.
O sábio respondeu. O tempo livre é a prioridade do homem e sua ambição é jogar conversa fora, nela está sua realização, sem mais pretensão. A pretensão do homem moderno é atender com urgência às coisas que eles criaram e, sem a inteligência de uma criança, usam sua liberdade tornando-se escravo delas. Correm o mais depressa possível e ganham tempo para depois perdê-lo fazendo mais coisas.  Quando enfim, cansam-se, resolvem subir a colina do verdadeiro objetivo, mas é impossível, olhando sempre para trás não conseguem deixar suas bagagens de preocupações, esquecem que são senhor das coisas, tendo-as com o que há de mais importante tem dificuldade em saber o que realmente é essencial.
O tempo se torna amigo do homem quando o homem não foge do tempo que tem, perdendo tempo com coisas, mas sim deixando o tempo passar sem coisa alguma para passar o tempo. O que realmente é importante? 
O homem respondeu num silêncio e profundo olhava para baixo, como se agora entendesse aquele povo e a si mesmo, pois avistava tudo de longe. Quando sentiu que havia que descer, notara que havia deixado o relógio na bagagem e não havia nenhuma outra forma de marcar o tempo a não ser a sua própria consciência. Naquele instante a coisa mais importante era que não havia coisa mais importante. Ele se dedicou ao tempo sem ver o tempo passar se impregnando daquela sensação de mansidão.

Leia também em SIMPLES - O prazer de concluir simples tarefas trás benefícios enormes.



2 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Quem inventou o tempo, ou melhor, quem inventou uma forma de marcar o tempo sabia exatamente o que era importante para si, de uma maneira quase universal marcou o que deveria ser importante para todos. E todos, sem questionar seguem calendários e horário estipulados para seguir o que é importante para os outros. Da mesma forma que um calendário foi inventado podemos criar o nosso próprio calendário a partir do sincero questionamento: o que é realmente importante para mim?
    Para tal o texto convida a subir numa colina, pois só temos a grandeza de nós mesmo quando nos vemos do alto.

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